Análise de Conjuntura parte 7
9 de junho de 2008
Uma sociedade pós-humana? A nanotecnologia, a robótica, a biotecnologia e as tecnologias da informação em sinergia possibilitam o pós-humano, ou seja, a idéia de que a natureza humana deixou de ter limites fixos e rígidos. Anuncia-se uma mutação antropológica: a possibilidade da hibridização e da cyborgização do humano. Podermos nos tornar homens e máquinas ao mesmo tempo. Segundo o físico e cosmólogo Luiz Alberto Oliveira, conferencista no Simpósio Internacional do IHU, essa sinergia das novas tecnologias “permitem prever uma sociedade fundada não em uma previsibilidade absoluta, mas, ao contrário, em uma indeterminação, que equivale a uma abertura. É como se cada vez mais fosse possível acumular, no presente, muitas linhas de futuro, muitas linhas de abertura para o inédito e o inovador. Essa é uma situação revolucionária”, diz ele. “Só que não é mais uma revolução que sucede num momento de crise, num momento de espasmo. Ao contrário, é uma revolução que se tornou constante. Essa é a nossa crise atual, a crise de uma mutação”, afirma. Para o físico, “tudo aquilo que entendíamos que era o mundo, a vida, a sociedade e o indivíduo começa a entrar em uma rota de indeterminação. Ou seja, nós agora somos capazes de intervir nas próprias bases que nos definem enquanto seres materiais, seres vivos e seres cognitivos”. “Nesse sentido, diz ele, parece legítimo falar que nos encaminhamos para uma sociedade pós-humana. Não que o humano terá deixado de existir, mas, ao contrário, será diversificado, multiplicado, pluralizado”. A novidade comenta o professor, é que “estamos sendo não apenas os usuários, mas estamos também sendo usados pelos objetos técnicos. A técnica agora é capaz de operar sobre nós. Somos matéria-prima dessa ação técnica. Isso significa que a forma humana está em vias de ser redesenhada para alguma coisa que nunca experimentamos. Esse temor do inédito é a marca que faz com que todo o mundo se interrogue, com grande dúvida e incerteza, acerca das novas tecnologias e das potencialidades enormes que elas estão abrindo para nós”. De acordo com Maria Paula Sibilia, “agora é possível ‘reprogramar’ as características e funções do corpo humano, abrindo um horizonte para além do que costumávamos conhecer como ‘humano’. Os limites dessa definição estão sendo desafiados, com pesquisas que se propõem a ‘desprogramar’ as doenças e o envelhecimento, por exemplo, visando a atingir a imortalidade. E, assim, inaugura-se uma era que alguns denominam pós-orgânica, pós-biológica ou, inclusive, pós-humana”. Segundo ela, “estes sujeitos, que hoje se definem como ‘pós-humanos’ devem ser constantemente ‘aditivados’ com adereços e recursos técnicos capazes de ultrapassar seu limitado equipamento orgânico original, são mais úteis ao projeto de mundo no qual vivemos”. Para a pesquisadora, “essa vontade de exercer um controle total sobre a natureza em geral e sobre o corpo humano em particular tem uma raiz fortemente fincada no projeto científico que fundou a era moderna”. Maria Paula Sibilia considera que anteriormente “havia algo além, seja da ordem do sagrado, do divino ou do acaso natural, que não podia (e nem devia) ser submetido aos desígnios meramente humanos. O segredo da vida, por exemplo, estava fora do domínio humano — e acreditava-se que assim permaneceria para sempre, porque era assim que as coisas eram e como elas deviam ser”. Agora, diz ela, “a partir desta ruptura, esses limites estão sendo desafiados e há uma promessa de ultrapassagem. Agora sim podemos, ou logo poderemos exercer um controle total sobre a natureza e o corpo humano, assumindo (ou não) todos os riscos que esse projeto ‘fáustico’ pode implicar”. “Éramos frutos do acaso e das probabilidades, uma espécie de loteria biológica que nos protegia contra a arbitrariedade. A partir de agora, terceiros ou nós próprios poderemos nos determinar biologicamente e nos reconstruir (ou construirmo-nos diferentes)”, afirma Gilberto Dupas, seguindo raciocínio semelhante ao da professora. Progresso ou aventura trágica?, pergunta ele. Para Dupas, em outra entrevista no sítio do IHU “o problema é que a evolução das tecnologias, ao contrário do que se pensa, nunca é neutra, pois acaba determinando procedimentos, comportamentos, padrões de consumo, direções”. O pesquisador destaca que “é uma discussão semelhante à discussão dos transgênicos. Os transgênicos aparentemente vieram para ficar. Eles, basicamente, causam vários danos possíveis, que não foram devidamente pesquisados, mas também trazem algumas vantagens. No entanto, afetam também a lógica biológica das sementes e da herança biológica natural de uma forma que nós não conhecemos direito. O famoso princípio da precaução, que deveria ser referencial para as pesquisas, não é feita, porque a maioria dos pesquisadores envolvidos nelas estão contratados pelas grandes corporações. Não são pesquisadores de universidades que têm aquelas referências éticas que obrigam a levar em consideração uma série de características pelas quais a pesquisa precisa se nortear”.

