Governo Estadual 160 páginas de suspeitas LEANDRO FONTOURA Paulo Afonso Feijó cuidou pessoalmente da montagem do dossiê contra o presidente do Banrisul, Fernando Lemos. São 160 páginas protegidas por espiral e capas plásticas que passariam por um polígrafo de estudante universitário se não tivessem abalado o governo Yeda Crusius ontem. Sem índice ou capítulos, o documento consiste em uma seqüência de suspeitas em relação a contratação de consultoria, empréstimos e contratos de publicidade na gestão de Lemos à frente do banco. Há denúncias seguidas de listas de perguntas colocando em xeque a legalidade de operações realizadas por Lemos desde 2003, quando foi nomeado por Germano Rigotto. O vice começou a organizar o material no início de fevereiro. Espalhadas em pastas diferentes, cópias de documentos e rascunhos foram tomando forma de dossiê depois de Feijó e Yeda terem se desentendido publicamente em relação à manutenção de Lemos no Banrisul. - Ele resolveu fazer o dossiê quando notou que não seria ouvido e que Lemos permaneceria como presidente do banco - diz um assessor lotado no Palacinho. O vice-governador fez uma seleção entre os casos que vem coletando desde 2004, quando se pronunciou contra irregularidades no banco em um jantar na posse na Federação das Associações Comerciais e de Serviços (Federasul). Muitas acusações teriam partido do interior do Banrisul, de servidores insatisfeitos. O dossiê foi finalizado em 18 de março. No dia seguinte, Feijó passou a entregá-lo a autoridades que considera responsáveis por investigar as denúncias. - É um monte de papel que ninguém assina. Todo mundo repassa, e ninguém é responsável pela difamação - disse Lemos O secretário da Fazenda, Aod Cunha, foi último a receber cópia, na semana passada. Encaminhou o dossiê a Lemos esta semana. O presidente do Banrisul já conhecia o teor do texto, mas era a primeira vez que o recebia oficialmente. Ontem, Lemos enviou uma resposta a Aod rebatendo as acusações. ( leandro.fontoura@zerohora.com.br ) As principais acusações O que diz Feijó Contratação de consultoria > É obscura a contratação do consultor Lauro Tachibana pelo Banrisul. Em 2003, ele foi contratado por "notório saber" por uma fundação ligada à Universidade de São Paulo. O contrato com Tachibana foi refeito por meio da Fundação de Apoio à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Faurgs). Segundo o vice, o Tribunal de Contas do Estado (TCE) apontou irregularidade no contrato. Mas a consultoria foi mantida por meio da H9, empresa cujo capital seria de R$ 1 mil e de propriedade de Tachibana. Feijó diz que o contrato é sigiloso e está na mesa do presidente do banco, Fernando Lemos. Tachibana já teria recebido R$ 40 milhões. O que diz o Banrisul > Lemos afirma que o Banrisul contrata empresas sem licitação apenas quando a lei permite. E afirma que a Faurgs é uma instituição idônea. O que diz o TCE > Análise feita pelo tribunal em relação ao exercício de 2004 apontou irregularidade na contratação da Faurgs por falta de licitação. O mesmo apontamento foi feito em relação a 2001 e 2002. Empréstimos a frigorífico O que diz Feijó > O Banrisul autorizou empréstimos ao Gala Frigoríficos, de Vacaria, mesmo tratando-se de uma empresa inadimplente. O vice aponta uma lista de 10 processos na comarca de Vacaria nos quais o banco cobra os valores, no total de R$ 30 milhões. Mesmo sem pagamentos, os contratos teriam sido prorrogados. Feijó afirma que um irmão de Lemos é gerente de uma agência do Banrisul em Vacaria. O que diz o Banrisul > Lemos afirma que o Gala foi financiado pelo Banco de Desenvolvimento do Estado (Badesul). As operações foram transferidas para o Banrisul a partir da incorporação do Badesul. O presidente afirma não ter feito qualquer operação com a empresa em sua gestão. Diz ter mandado executar o frigorífico judicialmente. O que diz Sérgio Lemos > Funcionário concursado do banco desde 1973, Sérgio é supervisor conferente de uma agência do Banrisul em Vacaria. O irmão de Lemos não retornou as ligações de ZH ontem. O que diz o dono do Gala Lourival Antônio Fronza não foi localizado por Zero Hora. O que diz Rodrigo Perboni > Perboni, que arrendou a estrutura do Gala, diz não usar a marca. Afirma ter duas empresas, a Perfruti, de embalagens, e a Valter Perboni. O empresário diz não ter qualquer relação com as áreas administrativa ou financeira do Gala nem com os empréstimos. O que diz um especialista > Fazer sucessivos empréstimos sem os pagamentos anteriores não é um ato incomum no sistema bancário, diz José Carlos Luxo, professor de finanças da Fundação Instituto de Administração (FIA) da USP. Tudo depende da análise de risco que o banco obrigatoriamente faz antes da operação. Se, ao tomar um novo crédito, a empresa estiver inadimplente, deve haver um critério técnico do banco para emprestar e garantias do tomador. Empresa de publicidade O que diz Feijó > O vice levanta suspeita em relação à contratação da PG, empresa de frontlight, pelo Banrisul. À empresa, teria sido encomendado o redesenho da logomarca do banco ao custo de R$ 20 milhões. A PG também teria exclusividade em contratos de publicidade do Banrisul e teria sido paga para realizar uma pesquisa de opinião não-relacionada às atividades bancárias. O dono da empresa seria Paulo Gerson Antunes de Oliveira, ex-assessor do PMDB gaúcho. O que diz o Banrisul > Lemos afirma que a acusação é absurda. Afirma que a logomarca foi feita pela agência do banco, a DCS, por R$ 107 mil. O presidente afirma que o Banrisul não tem nada a ver com a PG. O que diz a PG > O dono da empresa, Paulo Garcia, diz não ter contratos com o Banrisul. Afirma que fez apenas dois frontlights para o banco sob encomenda da agência de propaganda do Banrisul. Diz nunca ter feito pesquisa de opinião para o banco. O que diz Paulo Gerson Antunes de Oliveira > Afirma ter deixado a PG, da qual foi sócio, há cinco anos. Banco Matone O que diz Feijó > O Banrisul teria emprestado R$ 100 milhões ao Banco Matone, cujo patrimônio líquido, segundo o vice, é de R$ 50 milhões. Feijó afirmou achar estanho uma instituição pública confiar um volume de recursos superior ao patrimônio da empresa que recebeu o empréstimo. O que diz o Banrisul > Lemos afirma que banco não empresta dinheiro a banco. Não há, segundo ele, crédito devedor do Matone no Banrisul. O presidente diz que o Banrisul apenas comprou a carteira de crédito consignado do Matone, que teria como clientes funcionários públicos federais e municipais de fora do Rio Grande do Sul. O que diz o Banco Matone > O diretor vice-presidente do Matone, Ernandi Pereira de Ávila, afirma que a instituição não contraiu empréstimo do Banrisul e que o Matone tem uma carteira de crédito consignado de R$ 550 milhões: - Fazemos operação de cessão de créditos, e vários bancos, como o Banrisul, adquirem os créditos do Matone. São créditos para funcionários públicos e pensionistas que vendemos para outros bancos. O valor da operação com o Banrisul é de R$ 100 milhões e é de rotina entre bancos. Fonte: Zero Hora